sexta-feira, 7 de março de 2025

DICOTOMIA

Luz x escuridão;

Bem x mal;

Razão x emoção;

Tristeza x felicidade;

Amor x ódio; 

Princípio do prazer x princípio da realidade;

Pulsão de vida x pulsão de morte.

Assim por diante.

Somos ‘dicotômicos’, se é que existe este termo. Dentro em nós moram  luz e escuridão.

Segundo Freud - sucintamente falando - o princípio do prazer estaria nos ‘compensando’ ou evitando que enfrentássemos o sofrimento intrínseco da vida através da busca desmedida pelo prazer.

Ao contrário, o princípio da realidade construiria o adulto responsável, capaz de tolerar frustrações e adiar recompensas.

Somos dois em um; na verdade, muitos em um só. Únicos, ao mesmo tempo. Cada qual é cada qual e lida com porções diferentes destes princípios dentro de si, que se modificam a cada nova circunstância.

Trazemos em nós a pulsão de vida, relacionada à preservação e reprodução, relações de afeto etc. e ao mesmo tempo, trabalhando em conjunto, a pulsão de morte, que se relaciona à destruição, às vezes até mesmo agressão, dirigida a si mesmo e ao outro.

Somos o bem e o mal, 'tudo junto e misturado', não adianta disfarçar. Apesar da positividade tóxica em voga, todos sabem e podem admitir, ainda que internamente, que os dois lados aí estão, sobrepostos.

No momento encontro-me pré-diabética e hipertensa, tudo induzido pelo uso prolongado do corticoide.

Hoje passo a entender, ainda que minimamente, uma criança diabética em seu sofrimento de não poder comer aquelas guloseimas nas festinhas de aniversário de colegas da escola; lembro-me bem de um caso desses, de quando era criança. Levava ao choro e a um sofrimento imenso.

Se para mim tem sido tão difícil evitar certos alimentos, pois que sou uma ‘formiga doceira’, imagino para aquela criança. 

Daí já se colocam o princípio do prazer e o de realidade, a pulsão de vida, de autopreservação,  versus a pulsão de morte, que seria como que  ‘chutar o balde’, inclusive numa autossabotagem inconsciente, possivelmente. 

Difícil.

Somos dicotômicos.

Não podemos julgar o outro, já que não calçamos seus sapatos pelos percalços da vida. Fácil demais fazê-lo e, assim, evitar olhar para si mesmo.

A meu ver, as compulsões viriam do princípio do prazer, prazeres inadiáveis, e também estariam relacionadas à pulsão de morte.

Compro muito; bebo muito; depois de quatro pontes de safena, por exemplo, continuaria fazendo churrascos para comer a gordurinha da picanha; estou obesa, mas não deixo de comer tudo o que é calórico e ‘proibido’; estou diabética, mas não deixo de me refestelar com doces e carboidratos, disconforme com as orientações recebidas. 

Sei que todos podem me entender neste quesito.

Quanto à miastenia gravis, altos e baixos, flutuações da doença. Sempre que estou bem, melhor, quero aproveitar todo e cada momentinho que dou conta de viver e fazer - e acabo pecando por excesso, 

quer seja para me compensar pelas limitações anteriores, quer pelo desejo de viver o  prazer, como se a única oportunidade fosse aquela, e que não volta mais. 

Isso me leva um pouco além do que deveria ir e, em seguida, a uma piora já previsível diante da situação. 

Princípio do prazer, princípio da realidade; pulsão de vida, pulsão de morte. 

Excedo-me. Dificuldade de parar quando devo, respeitar meus próprios limites, talvez por imaginar que em um momento vindouro, próximo ou não, estarei limitada de alguma forma novamente. 

Altos e baixos, vivo a montanha russa de emoções e estados de disposição do corpo que mudam em um  mesmo dia, meio que à deriva e ao mesmo tempo tentando estar atenta às minhas próprias necessidades e instintos de autopreservação.

Não seria assim com todos nós?  Retórica.

É, o inconsciente nos leva a atitudes que nem sempre conseguimos entender e decifrar, mas que nem por isso deixam de existir. 

Luto por me tornar um adulto mais responsável e tolerante a frustrações, luto por aprender a adiar o prazer até um ponto possível e saudável, sem que me arrisque demais. Luto para ir “Além do Princípio do Prazer”.

Sou internada, recebo alta, me interno, desinterno, inquieta por dentro sem saber ao certo o que seria de minha própria responsabilidade e o quanto da evolução da doença, um dia bem, outro nem tanto. 

Não compreendemos tudo. Nada é matemático. 

Sinto-me responsável por atrair algum tipo de piora por meio de meus próprios pensamentos e energia; isso segundo a lei da atração, tão veiculada. 

Sinto-me culpada por não dar conta de melhorar, muitas vezes. Como se o que estivesse vivendo fosse porque estou atraindo. 

Culpada por não ter fé suficiente no ‘Deus do impossível’.

Acredito que tudo tem um propósito. E que talvez o impossível não esteja programado para o momento. 

Já o possível, este pode ser vivido e posso aprender a lidar com ele de formas bastante saudáveis, numa verdadeira pulsão de vida e dentro do princípio da realidade, responsavelmente.

Para que isso aconteça, a ajuda é imprescindível; a interna, essencial, o desejo de estar bem; e também a externa, tanto a profissional quanto a afetiva, tudo num conjunto que pode e deve conspirar a favor da vida, sem negar a escuridão que vive em nós.

Compliquei-me?

Pois é o que temos para hoje. 

Pensar.


Paula Mendes

18/01/25

PEDAÇO DE POESIA OU POESIA EM PEDAÇOS - Sobre Réveillons e Natais

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.”

Este pedaço de poesia faz parte de uma inteira, erroneamente atribuída a Drummond, ao que parece; a autoria, discutida, aparentemente se divide entre dois autores, Roberto Pompeu de Toledo e Vilma Galvão.

Trata-se de uma crítica à sociedade industrializada, onde a produtividade é priorizada, mas que ao mesmo tempo nos leva a voltar a respirar, tomar novo fôlego, constatando uma realidade interna, que acontece mesmo com a maioria de nós. 

Os réveillons, ah, os réveillons! Novos dias de esperança e planejamento. Nada como, depois das festas, comemorações, começar tudo outra vez com ânimo renovado. 

Além disso, seguem-se férias, em muitos casos. E há recessos, como o do judiciário. Pouco depois, o carnaval. E então o ano começa, até parar novamente durante o pequeno descanso da semana santa. Bom, mas este não é bem o tema do texto.

As festas de fim de ano não costumam ser exatamente o que se diz delas, especialmente o Natal, data em que se polarizam emoções. 

Os Natais, a meu ver, são uma data pesada para inúmeras pessoas e famílias, seja por falta de harmonia entre elas, desunião, abandono  ou pela ausência física de outras, distantes ou que já não se encontram aqui neste plano. Sente-se um vazio, complementado pelos apelos da mídia que deturpa todo o sentido da celebração do nascimento de Jesus, ícone da celebração em muitas religiões.

Há também, naturalmente, o outro lado; lado de comemorações genuínas, de encontro, de aconchego, de gozo da presença e companhia de pessoas queridas, que se estendem para além da família, muito além.

E existe ainda a ‘comilança’. Verdadeiro festival gastronômico. Necessário? Há controvérsias.

Vêm ainda, as festas de confraternização. Emoções também polarizadas. Nem sempre os ambientes de trabalho etc. são saudáveis do ponto de vista de relacionamentos. Por outro lado, é muito gostoso quando as pessoas se relacionam bem e podem usufruir de um momento relaxante de descontração fora das pressões do trabalho, conversar outros assuntos, rir um pouco, compartilhar experiências.

Época de contraposição de valores, sentimentos, divisões internas do sujeito, que acaba sofrendo de uma forma ou de outra, verdade seja dita.

A união e a felicidade atribuídas ao Natal não passam de um mito a que todos aderimos com sorriso nos lábios, independente do que vai no coração. 

Isto sob meu ponto de vista.

Pareço pessimista? A meu ver, apenas constato e ‘verbalizo’ uma realidade sempre oculta sob um véu.

Mas, retomando: Ah, os réveillons! (Sorrio).

Eu mesma já fiz meus planos, tracei metas e espero ansiosa o dia do “milagre da renovação”, como diz o texto inicial.

Quero ser uma pessoa melhor, trabalhar melhor, fazer dieta, voltar à academia, retomar os estudos, cuidar de mim e do outro, arrumar um parceiro, mudar de casa, de cidade, de emprego, viajar, fazer um pé de meia, pagar contas atrasadas e por aí vai... Objetivos a se perder de vista, carregados de esperança. Legítima.

Realmente um novo fôlego. Dá para respirar de novo, inspirar e se jogar no ano vindouro, ainda que com cautela, isso é de cada um. 

A Esperança é um sentimento necessário que nos move e renova nosso gás. Que nunca a desmereçamos. 

Mas que tenha também um pezinho no chão, o que também se faz necessidade. Expectativas alcançáveis, para que se evitem frustrações.

Com o título, trago logo um pedaço de uma poesia cuja autoria é também controversa e faço alusão à ‘poesia em pedaços’, tal como o coração nesta época do ano. Pedaços alegres, pedaços vazios, pedaços felizes, acolhedores, pedaços de todas as formas e tamanhos que, se unindo, formam um todo, um coração.

O próprio Natal não deixa de ser Poesia e nunca deixará, ainda que em pedaços... Pois Jesus é Pura Poesia!

Quero ainda compartilhar um pequeno texto que uma amiga fez o carinho de me enviar e que traduz o que sinto. Espero que ela não se importe:

“Sem tanta pressa, sem ansiedades, sem atropelos nos passos... 

Mais calmaria, mais olhares de ternura, mais atenção nos detalhes ao longo do caminho...

Mais paz, mais pausas... porque a gente tem mais é que cultivar belos jardins por dentro."

É o que desejo para todos nós em 2025.

Felicidades, alegrias, muito bom senso, tolerância, harmonia, respeito por si mesmo, pelo outro e pelo nosso planeta! E paz, muita paz interior e entre os povos.

Um Feliz 2025!


Paula Mendes

29/12/2024

MENSAGEM DE NATAL

Repetindo a mim mesma:


*Se você fica genuinamente feliz com a felicidade do outro;


*Se você consegue ouvir, na verdade 'escutar', um ponto de vista diferente do seu e entender que se pode interpretar a mesma coisa sob diversos ângulos sem que ninguém tenha que estar certo ou errado;


*Se você consegue respeitar o outro com suas próprias características e maneira de ser, sem querer mudá-lo para o que você 'acha' que ele deveria ser;


*Se você enfrenta o desafio diário de mudar a si mesmo, reconhecendo a própria escuridão e a própria luz ao mesmo tempo e no final do dia pode dizer: "dei o melhor de mim";


*Se você tenta amar incondicionalmente sem fazer julgamentos, inclusive a si mesmo;


*Se você consegue ser grato por exatamente tudo,

então você já compreendeu bastante desta passagem terrena!


Afinal, o que viemos fazer aqui?

Ouso responder: ser instrumentos. Para que Deus aja através de nós. 


Para este Natal,  desejo que o Amor Verdadeiro,  em todas e quaisquer de suas formas,  faça cada vez mais parte de sua vida, até que se torne 'rotina'.

Que ele seja um marco em que 'carregamos nossas baterias' de Amor, para recarregá-las todos os dias do ano vindouro. 


Feliz Natal e um 2025 cheio, muito cheio de Paz, Tolerância e  cuidados com o próximo e com o nosso planeta!


Paula 

Dez 24

O ELEFANTE SUBIU NA BALANÇA

É. 

O texto é pesado.

Mas vamos e venhamos: é preciso falar sobre o elefante no meio da sala, não é mesmo?

O assunto que desejo trazer à tona, à luz da reflexão, é a dependência. 

Não a dependência química, como de álcool e drogas, mas a física mesmo, essa que nos faz ter que pedir um copo d’água em vez de pegá-lo, por não ter condições físicas para tanto.

A perda da independência para este tipo de coisa e outras mais não deixa de se configurar um luto a ser trabalhado; e dói, verdade seja dita.

Fico pensando no envelhecimento, por exemplo, que, apesar de ser um privilégio negado a muitos, traz consigo perdas também e, com elas, a necessidade de adaptação, aceitação e elaboração. O envelhecer pode trazer consigo a diminuição da audição, dos reflexos, da visão, dos movimentos e flexibilidade do corpo, da libido na maioria dos casos, isso sem falar nas aposentadorias compulsórias, só pra começar. 

Mas não nos estendamos demais, já que o que quero abordar é a dependência decorrente do adoecimento. 

Vou me utilizar de minha própria experiência, que é o que tenho em mãos.

Acho importante e interessante trazer o assunto à baila, para podermos juntos pensar a respeito, ainda que em momentos diversos. São inúmeras as pessoas e famílias que lidam com essa situação de forma definitiva ou temporária, mas todos sabemos do que se trata. Em algum momento da vida, todos teremos passado por isso.

Há exatos 21 anos adoeci com miastenia gravis, uma doença autoimune que causa fraqueza muscular e que tem suas flutuações. 

Já houve épocas em que fiquei bem grave, outras em que frequentava academia diariamente. 

Só por este simples relato, já dá pra ver que há que se lidar com o imprevisível e o imponderável. Hoje estou bem; talvez amanhã, nem tanto. Ultimamente, inclusive, as ‘viradas’ têm se mostrado tão rápidas e repentinas que num mesmo dia amanheço bem e anoiteço mal ou vice-versa.

O ficar acamado não é coisa simples. Depender do outro não é coisa simples.

Volto a repetir o que escrevi há anos: temos que aprender a ser ajudados e assim ajudar a quem nos ajuda. 

O mau humor, por exemplo, nesses casos, seria uma ‘derrocada’. Poderia levar tudo a perder e piorar ainda mais uma situação que já não está fácil - para ninguém.

Saber pedir, admitir que tem que pedir, aprender a depender. 

Saber reconhecer os próprios limites e respeitá-los. 

Saber lidar com o seu cansaço e o do outro também. 

Saber construir uma relação de amor que caiba em tudo isso. 

Hoje estou desabando; amanhã estou forte, mas é o outro quem desaba. Hoje estamos bem, amanhã ambos nos vemos mal e assim vai, como é a vida para qualquer mortal.

Por vezes consegue-se ir ao banheiro e tomar banho de chuveiro, ainda que na cadeira; por outras, banho de leito e fraldas; comadre; idas ao banheiro na cadeira. Tudo se alterna de forma meio que imprevisível. 

Há muito não tenho conseguido caminhar da cama para o banheiro, sempre na cadeira, mas tenho me visualizado voltando a andar de bengala do meu quarto para a cozinha, como fazia até há algum tempo. Assim pretendo.

Já se completam três anos de internações repetidas, idas e vindas a se perder de vista, cada uma de um jeito diferente.

Sim, é um dia após o outro. Um dia de cada vez. ‘A cada dia o seu cuidado’, diz o dito popular, tradução do capítulo 6 em Mateus, versículo 34:

“Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal. “

Ou ainda, como diria meu pai, trazendo consigo uma inscrição de Sagi: “Não se preocupe, pode não acontecer!”

Este, acredito realmente, é o segredo. Tentar aceitar e viver da melhor forma o que vier. 

Hoje tomei um banho de chuveiro logo depois de chegar do CTI e, ao levantar a cabeça para molhá-la com o chuveirinho, qual não foi minha (grata) surpresa ao me deparar com aquele solzão batendo nos meus olhos e a me aquecer a alma! 

É viver cada momento com

gratidão, aceitação, resiliência, dando o melhor de si. Isso não significa que não fique em frangalhos de vez em quando e nem que na última noite não tenha tido uma crise de ansiedade causada por uma enxaqueca de 12 horas seguidas. 

As coisas são o que são.

Ser dependente passa, ainda, por uma ‘dependência emocional’ também. Você precisa contar com o outro, não apenas consigo mesmo, para lidar com as situações. E ao mesmo tempo não quer sobrecarregar ou preocupar quem está ali do seu lado.

Aí entra, a meu ver, a ajuda profissional, essencial, necessária, em que você tenha um espaço para lidar com suas emoções, elaborá-las e ao mesmo tempo não sobrecarregar ainda mais quem está mais próximo, por já se encontrar um tanto sobrecarregado e ter que lidar com suas próprias questões.

Entra também a necessidade de se sentir útil e capaz, mesmo estando limitado. Fazer tudo ao seu alcance para permanecer o mais independente possível, nem que seja tirar seus próprios remédios, dobrar uma roupa íntima para guardar. Qualquer coisa. E que quem te acompanha compreenda a importância dessas pequenas grandes coisas. Essenciais.

Essencial, também,  ter o máximo de privacidade possível,  o que varia muito de um momento para outro.

Porque a perda da privacidade não é algo fácil de se lidar e é realmente necessário que se preservem ainda que alguns instantes com sua própria intimidade.

Trata-se de um eterno equilibrar-se, um colocar na balança, um adaptar-se a toda hora e a cada prova. 

Daí o título do texto.

Pesado! 

Mas sigamos sempre tentando “dar um leve” no elefante.

Dumbo voava!


Paula Mendes

20/12/2024

VIRADAS

 “O GALO É O TIME DA VIRADA,

O GALO É O TIME DO AMOR...” 


Só que não! Não no último jogo.

Quem ganhou foi o Botafogo, alvinegro, para a felicidade de meu pai.

Confesso que fiquei feliz por ele e também pelo time, que nunca havia ganhado uma Libertadores; meu Galo já, e há de vencer outras. 

Mas não viemos discutir futebol (nem política, muito menos  religião).

Enquanto aguardamos a virada do ano, as viradas de copos de cerveja ou de shots, de taças de espumante, conforme o gosto, na virada da noite, tanta gente esperando a virada do plantão, na espera de ir pra casa celebrar, comemorar ou simplesmente dormir e descansar.

Tem gente que é da pá virada, que tem a cabeça virada.

Tem gente, assim como eu, que descobriu que virada do avesso é seu lado mais certo. Ou virada de ponta-cabeça, a fim de enxergar tudo por outro ângulo, por outro viés. Com isso em mente, vim dar uma virada na vida – eu e muitos mais - no jeito de olhar, no jeito de viver. 

É dar uma viradinha e olhar para o outro lado – e enxergar.

Esse é o time da virada.

Tal como aqueles dias em que você amanhece bem fraco, sentindo-se doente, sem energia e termina o mesmo dia com um bem estar, com muito mais força e disposição. Cheio de amor pra dar, isso depois de receber um tanto assim de amor, compreensão e cuidados.

Esse é o time do amor.

O amor que, só ele, muitas e tantas vezes, rege a virada – digo, as viradas na vida.

Sou testemunha disso.

Não querendo falar de mim, mas já falando – pois meu ego se recusa a ficar quieto (nunca quer se calar e parece que só olha pro seu próprio umbigo) – desejo, sinceramente, dar uma virada nos meus valores, ser mais adulta, dar aquela guinada necessária para se ter uma vida mental e emocional saudáveis, mesmo que a saúde do corpo não vá lá muito bem – essa pode até ter uma virada mas, no momento, pés no chão. 

As coisas são o que são; a vida é o que é. Assim como o jogo,que  foi o que foi. Não adianta querer mudar o passado ou o presente; sequer criar expectativas quanto ao futuro. É aceitar, viver ao máximo, se adaptar. “Aceita que dói meinos”, tipo isso, mesmo!.

Ando sem andar, um pouco fraca, um pouco de dificuldade de respirar e outras cositas más. No entanto, rodeada por anjos como estou, envolvida pelo amor e pelo cuidado, cheia de gratidão, dá pra dar uma vidada nisso tudo. Tal como o Galo, não nesse jogo, mas certamente em tantos outros, passados e futuros (assim diz a atleticana). 

Somos o time da virada e o time do amor.

O Amor é o sentido de tudo, dá sentido a tudo e é nosso último e primeiro, único fim de existir. Amar e ser amado, espalhar amor em todas as suas formas, com todas as suas consequências. Transcender é necessário. Deixar de lado a aparêcia física das coisas, aprender a sublimar, sei lá, perceber as subliminares da vida e despertar. 

O mundo pede tudo isso, está necessitado, ainda que não o saiba, obnubilado que está pela ilusão de metas e valores a serem cumpridos e seguidos, tal qual a multidão que caminha junto sem saber para onde está indo. Guiados pela mídia, pela tecnologia insana, por ideais de consumo e de beleza  impossíveis de se alcançar. Tal qual a Barbie, que se fosse gente de verdade, seria completamente desproporcional.  Ilusão, pura ilusão. Desilusão.

Exercitando, no entanto, a tolerância mútua até que se aproxime  da empatia e da compreensão, corre-se o risco de experimentar o amor. Tudo muda, então; tudo parece certo, tudo entra nos eixos, tudo dá aquela virada!

Não nego que seja difícil, há um trabalho árduo a se fazer – árduo simplesmente porque nossos egos querem falar mais alto, ter razão, estar sempre certos, ser o centro da atenção. Pobres de nós, mortais.

Temos que aprender a aprender com as situações que a vida nos propõe. 

Porque fácil, não é pra ninguém, basta olhar para o lado. Mas olha com um pouquinho de amor!

E mesmo que não dê pra dar uma virada nas circunstâncias, é bom saber que a gente não é quadrado e consegue se virar. Verdade, a gente se vira! Depois do luto, depois das perdas, entre as dificuldades, a gente vai se virando. 

Há que se ter em mente a meta, olhar para a frente. Para quê estamos aqui, afinal?

Somos o time da virada, o time do amor.

Só não vale mesmo é permanecer tempo demais com o ovo virado!

E vamos em frente!


Paula Mendes

06/12/2024 (bem perto da virada!)

TRABALHO, DIGNIDADE


 

(Reedito este texto por não concordar comigo mesma em certas partes do original, depois de refletir um pouco. Reelaboro, portanto).

 

Gostaria de dizer que todo trabalho é digno.

Infelizmente, não penso que seja este o caso.

Quem somos nós para julgar quem quer que seja? Quem sou eu para tanto, se não passei pelos percalços da vida daquela pessoa, se não lhe conheço a estória? Mesmo que a conhecesse!

Com que intenção a dita pessoa realiza aquele trabalho? Acho que isso conta muito. Muito mesmo. E isso poderia lhe devolver a dignidade, sim. (Obrigada, Murilo, por me abrir os olhos).

Tomemos como exemplo um profissional do sexo. Que situações o levaram até ali? Certamente, uma conjunção delas. Talvez haja sido a única maneira que tenha encontrado para sobreviver neste ‘mundo cão’. Muito fácil falar que haveria outras formas - mas não estávamos ali! Boa parte destes profissionais acabam por se drogar para dar conta do trampo; com o ‘lucro’, vamos dizer assim, voltam a comprar a droga para aguentar o tranco. E vai tudo virando uma bola de neve.

Cafetões, traficantes, agiotas e toda uma rede organizada em torno disso. Este já é o tipo de trabalho não digno. Assunto sobre o qual não pretendo discorrer no momento, nem em outro, mas sabe-se do que se trata.

Outro exemplo, e último, seria aquele vendedor ambulante que repassa produtos falsificados com o nome da marca original; bem, quem compra sabe, de fato, o que está levando. O vendedor não quer mais do que sustentar a família. Trabalho digno? Complexo, mas, sim, acho que sim, levando em conta toda a conjuntura e nuances do nosso país; uma confluência de fatores.

Por outro lado, existe aquele falsificador que verdadeiramente tem a intenção de ludibriar, visando apenas o próprio lucro. Um estelionatário. Este, sob o ângulo em que consigo enxergar, não seria um trabalho digno. Não falo do sujeito, porque não o conheço; o tipo de trabalho, no entanto... Volto a pensar: quem somos nós para julgar, mas já julgando! (Risos). Mantenho todo o respeito e acredito que as pessoas devem ser olhadas com compaixão e amor em qualquer situação. Tal como num dos filmes de  que mais gosto e que já mencionei em outra ocasião, ‘Os Últimos Passos De Um Homem’, com Susan Sarandon no papel de uma freira que faz todo um trabalho (digníssimo) com um prisioneiro condenado à morte.

Existem, ainda, muitas outras formas de trabalho 'borderline', vamos dizer assim, que se colocam numa linha tênue entre a ética, a cultura, a moral, tudo muito polêmico e que não vem ao caso neste texto, talvez em outro, quem sabe me aventuro? Pano pra manga.

Dito isso, gostaria de acrescentar que, sob minha ótica, a maioria dos trabalhos são dignos, sim. Não interessa se se trata de juízes, professores, faxineiros, médicos, ajudantes de cozinha ou de pedreiro. O trabalho dignifica e há pessoas que trazem ainda mais dignidade ao próprio labor (retomo, ainda uma vez, a intenção com que é realizado).

Boa referência disso são os profissionais da enfermagem, sobre quem quero discorrer especialmente neste texto e, ainda mais especificamente, os técnicos de enfermagem.

Este mês perfazem vinte e um anos que adoeci, tendo sido testemunha do trabalho diário destes profissionais que, tal como os professores, são tão pouco valorizados e trazem consigo uma importância a que me faltam palavras e me calam fundo.

Muitas internações neste período. Mesmo em casa, sou acompanhada fiel e carinhosamente por estas pessoas que se desdobram no atendimento a seus pacientes.

Não me refiro apenas àqueles que me acompanham, mas também aos que trabalham em serviços públicos de urgência e de emergência, centros de saúde etc., onde têm que “se virar nos trinta” para atenderem a uma demanda insana.

Atividade quase que insana (repito com licença poética, apesar de não se tratar de uma poesia - a não ser pela labuta diária que eles enfrentam) e que tantas vezes não consegue oferecer um mínimo de dignidade ao paciente, que dirá ao próprio funcionário em suas condições de trabalho. Dobram-se plantões, corre-se de um hospital para outro a fim de manter uma vida digna para si mesmo e seus dependentes.

Não sei o que dizer sobre sua luta sobre o piso salarial, por pouco conhecimento de causa, de modo que não me arrisco a opinar. Mas sei que tem sido uma batalha há alguns anos.

Sei ainda que, na rotina da unidade de internação, os médicos passam, examinam seus pacientes, deixam suas prescrições e recomendações, assim como os enfermeiros, os fisioterapeutas, os fonoaudiólogos etc. Passa também o pessoal da limpeza, da rouparia, da copa, da manutenção, uma infinidade de pessoas e cargos necessários para que toda a mágica aconteça. Cada qual com seu papel, essencial para o todo.

Na lida direta com o paciente, entretanto, quem permanece são os técnicos de enfermagem.

Sabem de todos os detalhes do dia a dia daquele doente. Trocam fraldas, lidam com secreções, dão banho, fazem curativos, administram medicações, atendem à demanda incessante das famílias e acompanhantes, aferem dados vitais, correm até a farmácia, conferem prescrições, são quase que psicólogos; lidam com vida, com urgência, com emergência, com sobrecargas quando faltam colegas e têm que redistribuir as responsabilidades ou até mesmo ser remanejados naquele plantão. Correm riscos. E sorriem.

Trabalham doentes, adoecem trabalhando.

O que os move? O que os levou a escolher esta profissão? E o que os leva a querer deixá-la, em alguns casos?

Fazer a diferença, cuidar, doar-se; é uma vocação, um dom, um verdadeiro chamado, um talento, uma responsabilidade que toma para si, cada qual com sua estória, seu próprio caminho, seus próprios motivos; mas, no frigir dos ovos, prestam este serviço incomparável e literalmente inenarrável à comunidade como um todo e aos indivíduos em seus momentos mais frágeis e vulneráveis. E isso não é pra qualquer um.

Trago comigo uma enorme gratidão por estes seres, não de outro mundo, mas deste, real, com o pé no chão, espalhados pelos ônibus da vida, de bairro a bairro, molhado de  enxurrada, pé na estrada e fé na existência.

Muito mais gostaria de dizer sobre o valor que carregam consigo estes sujeitos, tantas vezes anônimos, mas que fazem toda a diferença na vida de outros tantos.

Calam-me a alma, que extravasa sentimento e admiração.

A vocês, minha homenagem, meu respeito e o meu MUITO OBRIGADA!

 

Paula Mendes

17/11/2024 (reedição em 16/03/2025)

AUTOCUIDADO

 Cuidado. Cuide-se. Autocuidado. Se cuida direitinho. Cuide de você. 

Cuidados externos.  Cuidados internos.  Cuide de sua saúde.  De você para você. 

Cuide-se primeiro. 

Ame-se em primeiro lugar. Ama o próximo como a ti mesmo. Cuida-te. Sou toda cuidados. Sente prazer. Ama tua vida. Sente-te bem, mesmo que não esteja bem.  Ame você mesma. Não por estética.  Não pelo outro.  Ame por você. Sinta Deus te amar etc.


Encontro-me internada desde 22 de setembro.  Hoje, 1° de novembro.  Ainda sem previsão de alta.

Nós,  mulheres em geral, entendemos muito bem a sensação de ver os pelos crescendo no rosto, nas sobrancelhas e em muitas outras regiões sem poder nada fazer.

Horripilante, eu diria.

Vaidade pura? Será?

Fiquei pensando nas mulheres que enfrentam a quimioterapia,  por exemplo, e que testemunham a queda dos próprios cabelos sem ter como evitar. Há,  no entanto,  oficinas de autocuidados em que aprendem a se maquiar, por exemplo,  ou a usar lenços e acessórios de uma forma e de outra, sempre na intenção de se tratar com carinho e amor próprio. 

É também cuidar de si a pessoa fazer uma caminhada, exercícios físicos,  tomar um solzinho, relaxar num dia de folga, amar, conviver, trocar afetos... Amar a si mesma e ao outro.

Pensar em si, não se autossabotar, resolver ter paz, pedir ajuda, tudo isso é cuidar de si mesma.

Sentir prazer, sair com as amigas, com o namorado,  com a família,  sair pra dançar, fazer amor, viajar, sair sozinha, ir ao cinema,  contemplar a natureza, sentir-se parte do Universo, da humanidade, é sentir-se parte de algo.

E também tomar decisões. 

É rir pra burro, até de nervoso; e é chorar também, de medo, de raiva, de tristeza, de saudade, de alegria, é deixar as emoções fluírem sem represá-las. Mas é também deixar passar, dentro da impermanência da vida.

Amor próprio é  respeitar os próprios limites e princípios. 

Falar 'não'. É falar 'sim' também. 

Tudo isso não passa de um autocuidado. 

Mas, voltando à vaca fria, o que fazem as pessoas internadas há tanto tempo, neste quesito? Além de tratar da saúde,  é claro?...

Não dá pra ficar cortando o cabelo, mas dá pra passar um batonzinho, um perfuminho. Um creme na pele. Não se pode fazer as unhas pela possibilidade de abrir uma 'porta de entrada' para infecções,  caso se 'tire um bife'. Não dá pra se depilar, nem ficar tirando pelos, pelo mesmo motivo.  'Porta de entrada para bactérias'. 

Cheguei então à conclusão de que o autocuidado,  neste caso, seria 'não se cuidar'. Evitar fadiga. Se não me depilar, estarei me cuidando. Se não tiro pelos das paredes visíveis e se não faço as unhas, isso é amor próprio. 

Se não uso acessórios no hospital para que não se 'colonizem' com bactérias hospitalares, isso é me cuidar, e também do meu próximo. 

Autocuidado pelo avesso, porém pertinente, genuíno, legítimo. Tudo parece de cabeça pra baixo, mas não está.  Tudo está em seus devidos lugares.

O maior autocuidado, de verdade,  é se amar e respeitar a si mesma, perdoar-se pelo que foi e já era. É começar de novo, de onde quer que se esteja. É se deixar amar.

Mas sem olhar muito  para o ego e sim, para a alma, para o ser, para a pessoa. 

O resto é consequência. Estética ou não. 

Viver é uma arte. Tudo isso faz parte.


Paula Mendes 

1°/11/2024

PÁSCOA 2026

Jesus ressuscitou, Jesus renasceu!  É isto o que celebramos neste dia. Pegando carona com São Francisco de Assis, Desejo: Que ao invés de am...